Elza Soares: A Bossa Negra
A Bossa Negra
por Elza Soares - para a Dubas Música  [ 00-00-2000 ]

A Bossa Negra é meu segundo disco e é uma recordação maravilhosa! Me traz lembranças de Luizinho Eça, Astor Silva, Milton Miranda, Ismael Corrêa, Billy Blanco, Lupicínio e... João Gilberto, muito de João Gilberto. João foi um grande amigo que encontrei. Ele era uma pessoa que gostava, e acho que continua gostando, do meu modo de cantar, da minha divisão. E a gente ficou assim amigo, amigo, amigo... a gente não se separava, eu e o João. Quando eu ia gravar, tinha sempre a presença dele comigo.

Mas o disco nasceu por causa do Ronaldo Bôscoli. Na época ele escrevia para a revista O Cruzeiro. Ele achou que eu seria uma figura importante, representativa da raça negra, e disse assim: 'é isso que eu estava procurando! Você vai ser a representante que a gente tanto buscou! E vamos fazer um disco que vai se chamar Bossa Negra'. Pensei: 'por mim, tudo bem.'

Daí uma história incrível: o Bôscoli me arranjou uma espécie de namorado, que na verdade nunca foi meu namorado, que era o negro mais lindo da revista, para que a gente fosse em todos os lugares onde achavam que tinha preconceito, lugares conhecidos por atitudes de racismo. A gente foi ao Copacabana Palace, ao Sacha1s, ao Quitandinha... Mas eu na época era muito inocente e não sabia a gravidade da coisa e a seriedade do que eu estava fazendo. Eu apenas ia. Então a gente chegava com os fotógrafos pra ver quanto tempo eles demorariam para servir. E algumas vezes eles não serviam,
porque não serviam negros mesmo. E eu comecei a ganhar aquela força da raça negra, sem nunca ter escolhido, sem saber da responsabilidade que isso tinha, como hoje sei do que se trata.

Através de A Bossa Negra eu tive a honra de sentar à piscina do Copacabana Palace. O máximo, não é? Posso não ter feito nada, mas tinha um negão lindo ao meu lado. E conheci muita coisa através deste disco. Foi quando eu soube realmente que era negra. Essa negra, negrona, maravilhosa! E a verdadeira
responsabilidade desse significado. Hoje vejo que foi uma coisa perigosa, que poderia ter atrapalhado a minha carreira, pois eu entrei nessa 'campanha' sem ter noção da responsabilidade. Mas felizmente o disco foi um sucesso e é uma coleção de sambas muito bonitos.

São lembranças que me deixam bastante emocionada, muito mesmo. Foi então que eu comecei a aprender as coisas. E foi a partir deste disco também que eu comecei a saber o que era comer. Porque até então eu mal sabia o que era comer direito. E já tinha meus filhos.

Só que eu sempre achei que eles limitavam muito a minha voz. Nunca entendi essa coisa de ter que fazer tudo certinho. Até hoje eu sou muito 'torta'. Eu queria abusar dos efeitos que eu faço com a voz e eles não deixavam muito. Já o maestro Astor Silva cismou que eu era uma Sarah Vaughan. E eu pensava
'mas o que é que isso tem a ver?'. Eu nunca tinha escutado falar em Sarah Vaughan e achava uma coisa muito estranha. Mas ele falava: 'você é a Sarah Vaughan. E a gente vai tentar botar uma capa neste disco em que você esteja parecida com ela'. Quando eu vi a capa, eu disse 'oh, não!' Porque eu sempre
fui muito magrinha e não tinha o corpão daquela foto. E achei que não tinha nada a ver comigo, mas... Só muito depois é que eu entendi que era muito importante o fato de eu parecer uma Sarah Vaughan na época, ou seja, uma negrona com aquele jeitãoS era muito importante. E é isso mesmo que eu sou,
uma negrona. Só que eu não sou uma Sarah Vaughan, eu sou uma Elza Soares. Nessa época o meu empresário era o Abraão Medina. A partir daí eu comecei a fazer os shows de abertura de todos os grandes artistas que ele contratava para tocar no Brasil. Fiz show inclusive para a própria Sarah, para o Sammy
Davis Junior, Ella Fitzgerald, entre outros.

Gravar para mim era uma coisa muito séria, porque se gravava um LP em um dia. Entrávamos no estúdio, era tudo ao vivo, com aquela big band e eu gravava tudo num dia só. Botava a voz em tudo e não tinha nada de playback, coisa que eu até hoje detesto. Eu acho que se é pra cantar, tem que cantar ao vivo mesmo. Tudo ao vivo... e ninguém podia errar. Eu me lembro bem inclusive das cabines do estúdio em que os músicos se dividiam. E a gente ficava naquelas cabines. Tinha um apito de afinação para os instrumentos que era uma coisa horrorosa! Me lembro da presença de Lúcio Alves, André Midani, Aloysio de Oliveira e Sylvinha Telles. Tinha também um pianista maravilhoso, o 'pianista dos presidentes', Bené Nunes. Todos estavam sempre lá para conferir, para ver se era mesmo verdade o que estava acontecendo, pois eu era praticamente um E.T. no meio daquilo tudo, com aquela vitalidade e
aquela vontade toda de cantar. Acho que foi por isso que o Caetano Veloso me chamou de exagero, eu sempre fui exagerada mesmo. Porque eu era uma cantora diferente. Uma sambista diferente das demais. Era comparada às cantoras
norte-americanas e cantava Bossa Nova também.

Dos músicos, eu me lembro bem de um baterista, que eu não sei por onde anda, que é o Papão. Lembro muito do Wilson das Neves, que é meu compadre e eu amo de paixão. E me lembro de outro baterista, o Juquinha, que não tenho certeza se tocou neste disco. Tinha o grande violonista Helinho Delmiro, e outras
grandes figuras como os maestros Oswaldo Borba e Lírio Panicalli.

Naquela época eu não participava muito da escolha de repertório, não. Os compositores deixavam as músicas, eu gostava e cantava. Mas não escolhia muito, porque era o meu emprego, que eu precisava e, apesar de eu amar cantar e aquilo ser tudo o que eu queria fazer, eu tinha uma porção de
filhos para alimentar e tinha muito medo de dizer 'não gravo isso' e, de repente, não ter mais o meu trabalho.

A gravação da primeira música 'Tenha Pena de Mim' é muito emocionante, porque diz tudo o que eu vivia realmente naquele momento. Lembro da última faixa também 'Eu Quero É Sorongar', acho que só eu mesma gravei o Pedro
'Sorongo'. Mas deste disco, a música 'Beija-me' eu gostei particularmente e escolhi para cantar. Eu já era 'viadinha' e não sabia. Adorava fazer aqueles gritinhos maravilhosos! E me perguntavam, 'mas por que você está gritando?', e eu dizia: 'porque beijo pra mim é grito. Depois do beijo vem o grito'.

As imitações que eu faço de outros intérpretes como fiz da Dalva de Oliveira, do Miltinho e da Alaíde Costa em 'Boato' eu acho que é uma coisa de amar e ter carinho com os colegas. A Dalva, por exemplo, tinha um carinho muito grande comigo, como se eu fosse uma filha. Ela queria saber sempre por onde eu andava e o que estava acontecendo comigo. Me lembro mais de algumas canções do que de outras, porque algumas continuei cantando. Ou também muito por causa do compositor. 'Cadeira Vazia', por exemplo, é do nosso grande Lupicínio Rodrigues e a primeira música que gravei na vida foi 'Se Acaso Você Chegasse', dele. Eu cantava muito essa música no Texas Bar, aqui no Leme, pra onde fui levada pelo Moreira da Silva
e pelo Aerton Perlingeiro. Eu era muito jovem e tinha um medo de homem de me pelar, porque na minha casa diziam: 'se aparecer com barriga, é rua!'. E eu achava que só de olhar já ia engravidar. Um dia, havia um senhor sentado me assistindo, com um buquê de rosas lindíssimo, que se aproximou do palco e me disse: 'Trago umas rosas para outra rosa', e eu falei: 'olha, o senhor se enganou, porque eu detesto rosas e o meu nome não é Rosa!'. E ele disse: 'mas eu sei de tudo isso. Sei que você é a Elza e o meu nome é Lupicínio Rodrigues, o compositor da música que você acabou de cantar.' E eu falei:
'Seu Lupicínio, pelo amor de Deus!' mas já tinha cometido a gafe e passado o maior vexame!

E lá mesmo, no Texas Bar, eu dei outra gafe, desta vez, com a Sylvinha Telles - logo com ela que foi quem me levou para a Odeon! Um dia passou aquela mocinha dançando, me olhando muito, com aqueles olhinhos verdes e pensei: 'por que é que essa mulher não tira os olhos de mim?', sem nenhuma
maldade. Ela me viu meio assustada e falou: 'Meu amor, eu queria lhe fazer um convite, quando você acabar de cantar, você pode vir sentar à mesa com a gente ali naquele canto?' E eu respondi: 'Olha, a senhora está enganada. Eu fui contratada aqui para cantar e não para sentar à mesa de ninguém. Me
desculpe, mas a senhora está me atrapalhando.' E ela disse: 'Eu acho que não... meu nome é Sylvia Telles e eu vim para contratar você para uma gravadora'. Pensei: 'Uau!' E falei: 'Mas a senhora não me disse nada que era a Sylvinha Telles!'. E ela respondeu: 'Claro que não, você com esses olhos arregalados, parecendo um bichinho com medo de tudo! Você tem medo de tudo?' E eu disse: 'De algumas coisas tenho'.

E a Sylvinha passou a ser minha madrinha. Nessa noite eu acho que estava o Menescal, o Luizinho Eça, a Bossa Nova em peso, todos que iam sempre lá para me ver e ouvir. Mas a Sylvinha e o Moreira da Silva é que foram meus verdadeiros padrinhos. O Morengueira (Moreira da Silva) também foi como um pai pra mim, e até comprava remédio para os meus filhos. Eu não conhecia praticamente ninguém, nenhum artista ou compositor. Depois
fui conhecendo as pessoas e aí virei 'gente', né? Já não cantava mais à noite. Mas é engraçado, porque eu nunca me tornei uma artista, eu nasci artista. Nunca tive essa coisa de dizer 'Eu sou a Fulana de Tal', tenho vergonha e acho isso bobo. Eu sou a Elza que está aí, que chora, que ri, que
é feliz pra cacete, mas que também fica triste pra cacete, tudo isso. Não gosto também de ser comparada: 'você é a melhor'. Não, eu só quero ser eu.

Elza Soares
Rio de Janeiro, fevereiro de 2003.



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